Crônica

Apesar de herdarmos a língua portuguesa, a forma como falamos é bem diferente tanto na pronúncia, quanto no significado como podemos constatar no texto abaixo.

 

 

QUE LÍNGUA É ESSA?

 

Leovegilda era uma moça de aproximadamente 18 anos de idade. Negra de encher os olhos, alta, tinha seios avantajados, bumbum farto e pernas desejáveis a qualquer homem. Sabia do sofrimento e dos castigos que os seus ancestrais recebiam dos colonizadores portugueses e se entristecia com isso. Embora, mesmo assim, não tirava da cabeça a idéia de um dia ir morar em Portugal.

Nascida no interior, mudou-se para a cidade de São Paulo com o intuito de estudar e formar-se, pois invejava o modo impecável de falar dos portugueses. Estudou em turmas de Educação de Jovens e Adultos, concluindo o Ensino Fundamental e Médio e, com o auxílio do ENEM, ingressou na USP – Universidade Estadual de São Paulo. Cursou Letras e, quatro anos depois, estava diplomada.

Satisfeita com a formatura e, sem esquecer o sonho de conhecer Portugal, passou a procurar na Internet por um fidalgo português, não demorando muito a encontrar. Conheceu um português viúvo chamado Godofredo, que a convidou para morar com ele. Com tudo programado para a viagem, arrumou as malas e foi direto ao aeroporto com destino a Portugal. Emocionada, não conseguiu dormir durante a viagem. Tinha medo de acordar e descobrir que tudo não passava de um sonho.

Ao desembarcar, reconheceu rapidamente seu pretendente, pois já o conhecia pelas fotos que trocaram pela Internet. Muito feliz e certa de que conhecia bem a língua portuguesa, começou a tagarelar.

No dia seguinte, Godofredo saiu para trabalhar, deixando-lhe as seguintes instruções:

— Leovegilda, a Ritinha ainda está a dormir. Quando ela acordar, põe-lhe uma cueca e uma camisola. Dá-lhe depois uma bica, um copo de leite e um bocado de carcaça e diga a ela para estudar com a sebenta. Se quiseres falar-me, liga para o meu telemóvel.

Ela assentiu e quando a menina acordou, seguiu todas as instruções do marido: vestiu nela uma de suas camisolas, pois a menina não tinha nenhuma; vestiu-lhe a cueca do Godofredo, não encontrou a bica e deu-lhe somente um copo de leite. No supermercado próximo, comprou uma carcaça de frango e deu à garota que a rejeitou. Não mandou a menina estudar porque ficou com nojo da professora sebenta. Preocupada porque a menina ficou sem comer e sem ir à escola, foi até a garagem procurar o automóvel, mas não o encontrou.

Ao chegar e ver o estado da filha, Godofredo exasperou-se:

— O que é isso, Leovegilda?

Ao que ela respondeu:

— Fiz tudo o que você mandou, mas a Ritinha está com fome porque não quis comer a carcaça e achei melhor que não fosse à escola, já que você disse que a professora era sebenta. Não é um bom exemplo.

Godofredo, nervoso, disse a ela que para ser esposa dele e cuidar da filha, deveria estudar, caso contrário retornaria ao Brasil.

Muito chateada, recolheu-se ao quarto e, para desabafar, resolveu escrever uma carta aos pais:

 

 

 

Pai Zé, Mãe Joana,

 

Peguei o vôo errado. Não sei onde estou, mas não é em Portugal. Estou numa terra onde tudo é muito estranho: no café da manhã, tomam água de bica e comem carcaça de frango. As mulheres se vestem com camisolas e cuecas, não com camisetas e calcinhas. Para falar uns com os outros, não usam o telefone, ligam o automóvel e, o que é pior, aqui as professoras não tomam banho! E o Godofredo ainda que me mandar estudar com a professora sebenta!!

 

 

 

Tradução:

 

Cueca (calcinha)

Camisola (blusão)

bica (cafezinho)

carcaça (pedaço de pão)

sebenta (apostila)t

telemóvel (celular)

 

 

 

 

Autoras:

 

Adriana Malheiros Castro

Eliene Normanha de Castro

Enília Rodrigues Santana

Graça de Fátima Ribeiro Fagundes

Marinalva de Souza Teixeira Silva

Neide Pereira De Souza Fraga

 

ISSN1213-0180

 

 

 

SÉRIE ACADÊMICA— TEXTOS PARA DISCUSSÃO                                                     Nº. 01