Momento Literário

 

SÉRIE ACADÊMICA— TEXTOS PARA DISCUSSÃO                                                     Nº. 01

 

ISSN1213-0180

 

 

A VISÃO DO ÍNDIO BRASILEIRO NA

OBRA "O GUARANI", DE JOSÉ DE ALENCAR

 

O presente estudo tem como pretensão analisar a importância e a descrição destinadas ao índio brasileiro por José de Alencar, na obra O Guarani. É uma breve análise de elementos que perpassam pela afirmação / nascimento da nacionalidade cultural brasileira.

 

1 - CONTEXTO HISTÓRICO

O Romantismo, como movimento literário caracterizado tanto no estilo quanto no espírito romântico pela palavra liberdade, surgiu na Europa no final do século XVIII e início do século XIX.

O mundo vivia intensamente as conseqüências das duas grandes revoluções burguesas: a Revolução Industrial, na Inglaterra em 1788, e a Revolução Francesa, de 1789. O novo ambiente de fábricas, indústrias, máquinas a vapor, locomotivas impõe uma crença na capacidade humana de crescer e se desenvolver, como também a necessidade de uma sociedade alicerçada nos princípios da igualdade, liberdade e fraternidade. A mudança no cenário econômico-político traz consigo uma mudança artístico-cultural denominada Romantismo.

No Brasil, o cenário era propício para o desenvolvimento dessa corrente. A vinda da família real (1808) criou algumas condições indispensáveis ao progresso, resultando em transformações sócio-econômicas e, consequentemente, criou-se também a necessidade de reforçar a consciência nacionalista. Esse sentimento de nacionalismo se instaura com a independência política do país, em 1822.

 

2- JOSÉ DE ALENCAR - BREVE HISTÓRICO

 

Nascido em 1829, em Mecejana - Ceará, José Martiniano de Alencar é fruto do romance do  padre João Martiniano de Alencar com sua prima, Ana Josefina. Faleceu em 1877, vítima do mal do século - a tuberculose, no Rio de Janeiro.

Estudou Direito e atuou como político, advogado e jornalista. Produziu uma extensa obra literária, dentre artigos, crônicas, peças de teatro, mas foi no gênero romance que mais se destacou; escreveu 21.

O conjunto do romance alencariano pode ser classificado da seguinte forma:

Romances urbanos ou de costumes - Retratam a vida e os costumes da sociedade da época - a burguesia - marcada pelas desigualdades e intrigas sociais. Apresentam final feliz e vitória do amor. São exemplos desse grupo: Cinco minutos, A Viuvinha, Sonhos D’ouro, Senhora, Lucíola, Dura Encarnação, etc.

Romances Históricos - Narram histórias referentes ao período colonial ou dos bandeirantes, como por exemplo: As Minas de Prata, A Guerra dos Mascates, etc.

Romances Regionalistas, rurais ou sertanejos - Retratam a vida simples do homem do campo, a natureza rural e seus costumes. Como exemplo, temos: O Sertanejo, O Gaúcho, O Tronco de Ipê, Til, etc.

Romances Indianistas - Prevalece a exaltação do índio brasileiro. Em Ubirajara, o índio é apresentado como nativo, sem contato com o homem branco; Iracema mostra os primeiros contatos de índio com o colonizador; já o romance O Guarani revela um índio em processo de aculturação. Convive e, às vezes, assimila os costumes do branco.

 

3 - A OBRA

 O livro começa com dois personagens verdadeiros: o fidalgo português dom Antônio de Mariz e sua esposa, dona Lauriana, paulista, filha de bandeirantes. Ele veio de Portugal, em 1567, para trabalhar sob o comando do governador-geral Mem de Sá e depois saiu do Rio de Janeiro para morar em uma fortaleza que tinha construído em plena selva. A partir daí, entra a imaginação do autor. O enredo se passa na casa-forte às margens do rio Paquequer, na Serra dos Órgãos, estado do Rio de Janeiro. Com o casal, viviam os filhos Cecília e Diogo, a sobrinha Isabel (que na verdade era filho do fidalgo com uma índia), dom Álvaro, um nobre de 28 anos que era o braço direito de dom Antônio, vários trabalhadores em um personagem muito fiel. Era o índio Peri - alto, forte e destemido- , que, por devoção a Ceci, desiste de ser o cacique da tribo dos goitacás, abandona seu povo e suas tradições para servir a moça de todas as formas - protegendo-a como um guarda costa cuidadoso e salvando-a de uma série de perigos. Por descuido, dom Diogo mata uma índia aimoré e o pai, sabendo que os índios vão se vingar, resolve mandar o filho de volta para o Rio na próxima expedição. Enquanto isso, Loredano, ex-frei italiano que tinha abandonado os votos religiosos ao receber o mapa de uma mina de prata de um moribundo, chega ao solar da família Mariz. Convence alguns homens do fidalgo a escutar seu plano: saquear a casa do fidalgo e raptar Ceci, por quem sentia uma louca paixão. Desmascarado por Peri e dom Álvaro, ele é queimado numa fogueira. Isabel amava dom Álvaro, mas sabia que o moço só tinha olhos para Ceci e que dom Antônio aprovava aquele casamento. Um dia resolve se declarar e, para sua surpresa, é correspondida. O namoro até teria futuro, mas a casa-forte é atacada pelos aimorés. Peri resolve agir sozinho: entrega-se como refém. Pouco antes de ser sacrificado num ritual de antropofagia, ele é salvo por dom Álvaro e seus homens. Já em casa, conta seu plano: tinha ingerido curare, erva venenosa, para que os índios morressem envenenados ao comer sua carne, mas, como conhecia o antídoto para o veneno, ele mesmo se cura. Os aimorés, furiosos, atacam. Vendo que não existia outra saída, dom Antônio pede a Peri que salve sua filha, mas primeiro batiza o índio. Com a casa em chamas, os dois fogem numa canoa e, alguns dias depois, surpreendidos por uma tempestade, refugiam se no topo de uma palmeira.  Para consolar a moça, Peri conta a ela a lenda indígena do começo do mundo, em que Tamandaré e sua esposa se salvam de um dilúvio graças a uma palmeira. Depois desceram da árvore para povoar a terra. Ceci, percebendo-se apaixonada por Peri, olhava o companheiro com amor e medo, pois as águas não paravam de subir.

 

4 - ANÁLISE

O Guarani é considerado pela crítica como a obra mais representativa do indianismo brasileiro. Através desse romance, Alencar pretende apresentar ao público leitor características essenciais da cultura do homem que primeiro habitou o território nacional. Demonstra que o indígena brasileiro é dotado de traços de grande valor estético para nossa literatura. Por meio do romance homenageia-se nossos primórdios, firmando-se a cultura brasileira e sua própria história.

Para compreender a visão do índio revelada por Alencar, faz-se necessário a análise dos seguintes aspectos:

 

Características físicas - A palavra-chave desse romance é a idealização do índio brasileiro. Em busca desse sentimento, e na exaltação do índio como detentor das raízes históricas do Brasil, o autor distancia-se do universo cultural do indígena. A descrição física do personagem não corresponde à realidade genética desse povo. No romance, Peri, o índio alto de beleza selvagem e herói da trama, é apresentado como dotado de força e valentia incomuns. Tais aspectos podem ser observados nos trechos a seguir: “O índio fazia um esforço supremo para suster o peso da laje prestes a esmagá-lo; e com braço estendido de encontro a um galho de árvore mantinha por uma tensão violenta dos músculos o equilíbrio do corpo.” (p.123),  e “ O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que ele salvara sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrara a si próprio da morte.” Quando descreve um dos índios da tribo dos goitacás, Alencar revela-nos um rapaz alto, cabelo preto cortado rente, com dentes alvos e rosto oval de beleza selvagem, “homens quase nus, de estatura gigantesca e aspecto feroz”. O exagero na descrição física dos índios é marca fundamental para a idealização desse povo.

 

Características psicológicas - O romance é também uma maneira de afirmar a visão do bom selvagem: “...D. Antônio não se admirava; conhecia o caráter dos nossos selvagens, tão injustamente caluniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança eram generosos, capazes de uma ação grande, e de um estímulo nobre.” A idealização física, em Alencar, soma-se à idealização psicológica. Peri é o herói capaz de perder a própria vida para agradar ou salvar a amada. São apresentadas fortes cenas de bravura “Assim, durante um instante, a fera e o selvagem mediram-se mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro...” e heroísmo “Quando Peri abaixou o arco de Arerê, não havia na taba dos brancos uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.”. Tais atitudes se repetem por toda a obra, e se confirmam com D. Antônio entregando a vida de sua filha a Peri.

 

Características lingüísticas - A obra literária apresenta riqueza de linguagem e revela a presença e valorização do índio na seleção vocabular, que nos apresenta termos, costumes e hábitos da cultura indígena. Há, na obra, uma diversidade de palavras indígenas. São apresentados nomes de animais, plantas, instrumentos e costumes dos índios nativos:

 

VOCÁBULOS INDÍGENAS

SIGNIFICADO

GUANUMBI

BEIJA-FLOR

HIARA

GATO SELVAGEM

IGARA

CANOA

TANGAPEMA

TACAPE

TAPIR

ANTA

TICUM

FOLHA DE PALMEIRA

 

Espaço - O cenário é outra força marcante do nacionalismo brasileiro na obra de José de Alencar. Conforme afirma Dante M Leite (in Faraco, p.35): “... um dos elementos básicos para a expressão do nacionalismo é a terra selvagem, a floresta virgem ou quase virgem, onde o homem reverte à sua condição de inocência.” A natureza exuberante é descrita em minúcias e nela vive o herói da história: “A vegetação nessas paragens ostentava outrora todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendiam às margens do rio. Tudo era grande e pomposo no cenário que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas majestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa.”

 

Valores culturais - A aculturação indígena é expressa nos costumes e modo de agir europeizados. Ao “batizar” Peri, José de Alencar acaba igualando valores morais e culturais do índio aos do homem branco: “O índio caiu aos pés do velho cavalheiro; que impôs-lhe as mãos sobre a cabeça. - Sê cristão! Dou-te o meu nome.” Esse livro corresponde a uma das fases dos romances indianistas de Alencar em que o índio não é mais o selvagem, o nativo; convive a aceita costumes da cultura européia.

 

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essa análise não esgota o aprofundamento da obra, o conhecimento da estrutura do romance O Guarani. Centramo-nos aqui mais nas descrições do índio brasileiro, em especial Peri,  apresentadas pelo autor, nosso objeto de estudo. Fosse um trabalho mais amplo, teríamos a obrigação mais detalhista de vislumbrar todas as cenas e acontecimentos.

O romance O Guarani, além de ser um romance histórico, traz como personagem, a familia de Dom Antônio de Mariz, personagem real. A natureza em José de Alencar tem um tratamento de exaltação extrema, para valorizar a terra - numa defesa da tese nacionalista de valorização do homem e da terra pátria. As suas descrições da natureza são infindas, sempre ressaltando a riqueza da fauna e da flora principalmente. Assim, percebe-se claramente na obra os argumentos usados pelo autor para “garantir” a identidade nacional.

 

6 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMARAL, Emília, ANTÔNIO, Severino & PATROCÍNIO, Mauro Ferreira do. Português: Redação, Gramática, Literatura e Interpretação de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

CARAS, Livro Vivo, Vol. 5 - O Guarani. Editora Abril.

FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto de. Língua e Literatura: 2º Grau. São Paulo: Ática, 1985.

LEITE, Dante Moreira. O Romantismo no Brasil: aspectos gerais. In FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto de. Língua e Literatura: 2º Grau. São Paulo: Àtica, 1985, p 35.

SORDI, Rose. Magistrando a Língua Portuguesa. São Paulo: Moderna, 1990.

TERRA, Ernani & NICOLA, José de. Gramática, literatura e produção de textos para o ensino médio. 2. ed. São Paulo: Scipione, 2002.

 

 

 

 

Equipe:

Diene Aparecida

Deuma Maria

Maria Anita

Mabel Donato

Maria Jovina

Osânia de Cássia